O economista-chefe do BTG Pactual, Mansueto Almeida, afirmou que a combinação entre juros elevados e aumento das despesas públicas afeta a capacidade de investimento de empresas e do poder público, além de tornar as condições de crédito mais seletivas. A declaração foi feita nesta quinta-feira, 06 de agosto, em encontro promovido pela Vice-Presidência de Terrenos Urbanos do Secovi-SP.
Mansueto Almeida vê juros altos como insustentáveis para o Brasil
Segundo Mansueto, o Brasil atravessa o quinto ano consecutivo com taxas de juros superiores a 10%. Embora as projeções indiquem uma possível redução da Selic nos próximos anos, ele ponderou que a manutenção de um ambiente de juros mais baixos dependerá de avanços na condução fiscal e no controle do crescimento das despesas públicas.
“A situação atual dos juros no Brasil é insustentável para o setor privado e para o setor público. O país precisa fazer um ajuste fiscal consistente. Caso contrário, teremos de conviver com uma inflação mais alta, porque o juro real não permanecerá nesse patamar por muito tempo”, disse.
O economista também comentou o aumento das despesas relacionadas aos juros da dívida pública. De acordo com os dados apresentados, o custo do serviço da dívida, estimado em aproximadamente R$ 650 bilhões em 2023, deverá chegar a cerca de R$ 1,15 trilhão neste ano. Mansueto observou ainda que os títulos públicos de longo prazo vêm oferecendo taxas reais próximas de 8%, enquanto a taxa básica de juros permanece em patamar elevado.
Para o presidente do BTG Pactual, uma redução mais consistente dos juros passa pela recuperação da confiança na trajetória fiscal. Ele mencionou o período entre 2016 e 2019, quando a Selic recuou de 14,25% para 4,5%, como referência de que medidas de controle das despesas e a aprovação de reformas podem contribuir para reduzir as expectativas de inflação e as taxas de curto e longo prazo.
“Se vier um governo com um plano consistente e com disposição para controlar o crescimento dos gastos, o juro longo poderá cair rapidamente. Mesmo antes da concretização das medidas, a perspectiva de melhora já seria capaz de mudar a percepção dos investidores e destravar novos investimentos”, afirmou.
Mansueto também destacou que o ambiente de juros elevados influencia o funcionamento do sistema financeiro. Diante de custos de captação mais altos, os bancos tendem a priorizar empresas com melhor situação financeira e maior disponibilidade de garantias, o que pode restringir o acesso ao crédito por pequenas e médias empresas e consumidores.
No setor imobiliário, esse cenário representa um fator adicional de atenção, uma vez que as condições de financiamento influenciam as decisões de compra das famílias, a aquisição de terrenos e o desenvolvimento de novos empreendimentos.
Ao mesmo tempo, o executivo ressaltou que o Brasil mantém oportunidades em segmentos como infraestrutura, energia, petróleo, agronegócio e construção.
“O Brasil está muito melhor do que estava há dez anos e continua sendo um país de grande potencial. No entanto, com os juros nesse nível, todos são prejudicados. Se houver uma sinalização clara de responsabilidade fiscal, o país poderá voltar a atrair investimentos e aproveitar as oportunidades que permanecem disponíveis”, concluiu.
Ao final de sua participação, Mansueto defendeu a continuidade do diálogo entre o setor privado, o governo e o Congresso Nacional. Segundo ele, entidades representativas podem contribuir para o debate ao apresentar propostas e analisar os efeitos das decisões econômicas sobre a geração de empregos, o crescimento e a realização de investimentos no país.
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